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Fotografia

Fotógrafo José Medeiros , um fotografo além de seu tempo

Um Legado de um piauiense

João Cruz

João CruzTudo sobre fotografia e imagem

12/07/2019 08h47Atualizado há 5 meses
Por: João Cruz - Repórter fotográfico/DRT 1818
Fonte: Escritório de Arte.com
Foto: Divulgação
Foto: Divulgação

José Medeiros (Teresina PI 1921 - L'Aquila, Itália, 1990)

Fotógrafo

Começa a fotografar por volta de 1937 como amador, em sua cidade natal. Em 1939, José Araújo de Medeiros transfere-se com a família para o Rio de Janeiro, onde trabalha como funcionário público na Companhia de Correios e Telégrafos e no Departamento Nacional do Café. Paralelamente, retrata artistas em um estúdio montado em casa e atua como freelancer para as revistas Tabu e Rio. Em 1946, o fotógrafo francês Jean Manzon (1915 - 1990) o convida para integrar a equipe da revista O Cruzeiro, onde permanece até 1962. Publica, em 1957, o livro Candomblé, o primeiro a documentar a religião afro-brasileira. Com Flávio Damm (1928) mantém a agência fotográfica Imagem, de 1962 a 1965. Depois, passa a trabalhar como diretor de fotografia de cinema, além de dirigir curtas-metragens e o longa Parceiros da Aventura, 1979. Assina a direção de fotografia de obras clássicas do cinema nacional como A Falecida, 1965, de Leon Hirszman (1937 - 1987); Xica da Silva, 1976, de Cacá Diegues (1940); e Memórias do Cárcere, 1983, de Nelson Pereira dos Santos (1928). No fim da década de 1980, leciona fotografia na Escola Internacional de Cinema de San Antonio de Los Baños, em Havana, Cuba. Em 1986, a Fundação Nacional de Arte - Funarte realiza a mostra retrospectiva José Medeiros, 50 Anos de Fotografia, no Rio de Janeiro, e publica um livro homônimo.

Comentário Crítico

José Medeiros integra a equipe de fotógrafos que, a partir de 1943, com orientação de Jean Manzon (1915 - 1990), promove a reforma editorial da revista O Cruzeiro. Tendo como parâmetro revistas internacionais como a norte-americana Life e a francesa Paris Match, o projeto introduz a fotorreportagem na imprensa brasileira. A renovação dá amplo destaque às imagens e promove a divulgação da estética da fotografia moderna no Brasil: closes, ângulos de visão então inusitados, seqüências fotográficas, enquadramentos geometrizados etc.

O Cruzeiro privilegia temas de ideologia nacionalista que promovem a imagem do Brasil como um país que caminha no sentido da modernidade e do desenvolvimento. Segundo a pesquisadora Helouise Costa, as pautas mais recorrentes são: o perfil de personalidades políticas e artísticas, cenas de esporte e lazer (praia, futebol e carnaval), arte, ciência, natureza, aventuras, a cidade como emblema do progresso, o "grotesco" (deformações físicas e crimes espetaculares), o "exótico" (indígenas, religiões não católicas e festas populares) e a diversidade cultural do próprio país.1

Produzido nesse ambiente, o trabalho de Medeiros é diversificado e segue, em parte, a linha editorial da revista. Ele fotografa artistas e personalidades políticas da época, a praia e o carnaval do Rio de Janeiro, e fica conhecido principalmente pelos registros de indivíduos, comunidades e manifestações culturais marginalizadas, tais como a população negra, o candomblé, pacientes psiquiátricos, prostitutas e tribos indígenas. Visto fora do tratamento editorial recebido pela revista, seu enfoque confere dignidade aos excluídos.

Os repórteres da revista acompanham os irmãos Villas-Boas nas viagens da Expedição Roncador-Xingu, que, nos anos 1940 e 1950, contata pela primeira vez diversas populações indígenas do noroeste do Brasil. As matérias de O Cruzeiro são as primeiras a divulgar, em grande escala, imagens de índios brasileiros. No entanto, essas populações eram mostradas como bárbaras e incivilizadas, sendo sua imagem incompatível com a ideologia do progresso.2 Uma das fotos mais conhecidas de José Medeiros, realizada enquanto acompanha os irmãos Villas-Boas, em 1949, mostra um índio empurrando um avião. A foto posada torna-se um emblema do contraste entre o "moderno" e o "selvagem".

Assim como outros fotojornalistas de O Cruzeiro, José Medeiros conquista grande popularidade pela sua atuação no periódico. A publicação tem grande alcance nacional e promove a idéia do repórter fotográfico como um herói que enfrenta inúmeras dificuldades para revelar ao público as faces ainda desconhecidas do país.

O fotógrafo húngaro Robert Capa (1913 - 1954) costuma dizer que se uma foto não é boa é porque o operador da câmera não estava perto o suficiente da cena. As imagens de Medeiros parecem feitas sob essa orientação, pois mostram que ele não é um espectador distanciado das situações que registra. Medeiros opta pela discrição e, com isso, consegue se inserir nas cenas, fotografando as pessoas à vontade, muitas vezes em momentos íntimos. Ele é um dos primeiros repórteres a adotar a câmera alemã de 35mm Leica em O Cruzeiro, o que confere agilidade ao seu trabalho e, conseqüentemente, espontaneidade às fotos.

Medeiros privilegia a clareza da informação em relação às possibilidades formalistas de composição (pontos de vista angulosos e fotos que lembram abstrações, por exemplo). Em busca de imagens que denotem naturalidade, opta quase sempre pela luz ambiente e por tomadas feitas à altura dos olhos. Foca sua atenção nas pessoas, sejam elas famosas ou personagens anônimos das ruas. Medeiros se concentra em seus gestos, expressões e movimentos, raramente se preocupando em registrá-las junto de objetos ou de cenários que revelassem sua personalidade.

Assim como o fotógrafo alemão Erich Salomon (1986 - 1944) que, nos anos 1920, é conhecido por ser um dos primeiros a fotografar chefes de Estado em situações não posadas e não protocolares, Medeiros investe na desmistificação de personalidades públicas. É o que se percebe na seqüência feita em 1959, em que mostra o presidente Juscelino Kubitschek (1902 - 1976) comendo manga em um almoço em Brasília.

Notas
1 COSTA, Helouise. Aprenda a ver as coisas. Fotojornalismo e modernidade na revista O Cruzeiro. Dissertação (Mestrado em Artes) - Universidade de São Paulo. São Paulo, 1992.
2 Idem.

Críticas

"O Medeiros é um dos nossos mais brilhantes, modernos e inteligentes fotógrafos. Ele saltou por cima de sua geração de fotógrafos corretos e acadêmicos, inventando um estilo pessoal, cheio de poesia, inspiração e improvisação, criando uma estrutura técnica absolutamente livre de dogmas, perfeitamente adaptada às dificuldades reais do cinema brasileiro. Nesse sentido, ele é um precursor solitário, cujos ensinamentos vão fertilizar muito a fotografia do cinema brasileiro. A leveza do seu trabalho, cúmplice e crítico ao mesmo tempo, não se superpõe nunca ao que filma, procurando sempre a cara real das coisas. Nós podemos dizer, grosso modo, que, na história recente do cinema brasileiro, duas grandes correntes se destacaram, as quais nós poderíamos chamar, também grosso modo, de expressionistas e realistas poéticos. Medeiros, no meu entender, é o mais importante entre estes últimos".
Cacá Diegues
José Medeiros: 50 anos de fotografia. p. 23.

"(...) Com clareza e sagacidade, Medeiros registrou o candomblé, os índios contatados pelos irmãos Vilasboas, a prisão e a loucura da Colônia Juliano Moreira, os personagens da política e da sociedade. Nada escapava de sua câmara, de seu estilo inventivo e inspirado, que fez escola no fotojornalismo brasileiro. Um olhar atento e corajoso que deu dramaticidade necessária a nossa fotografia. Um olhar moderno, apaixonado e instigante sobre a realidade (...). José Medeiros deixa-nos como herança um trabalho incrível e singular. Imagens marcadas por um olhar muito especial, comprometido com a realidade brasileira e com a estética contemporânea".
Rubens Fernandes Junior
Um olhar moderno e instigante. IrisFoto, n. 440, p. 12.

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